terça-feira, 9 de novembro de 2010

Nove Horas


Imagem por: ~addaen

Ele acordava, levantando-se de um salto na cama desarrumada. Eram nove horas. Passou a mão pelo rosto suado e levantou-se aos poucos, ainda embriagado pelo sono. Demorou-se um pouco ao se vestir, até que ficara completamente pronto e arrumado. Saiu do apartamento e pegou o elevador vazio. Ao sair, notara que o porteiro não estava na guarita, ninguém estava.

Caminhou pelas ruas e viu que tudo estava vazio, apenas os altos prédios, carros modernos, outdoors e todos os objetos da sociedade moderna viviam ali, reinando na paisagem urbana. Mas e as pessoas? Será que todos acordaram atrasados como ele? As casas fechadas, algumas de portas abertas, escancaradas, mas ninguém. Ele continuou seu trajeto feito um zumbi, caminhando pelas ruas desertas, com jornais voando seguindo a trajetória do vento que soprava com força por entre os prédios intactos naquela devastação biológica. Lembrou-se dos tempos de garoto, quando ainda vivia casado com os livros, ao estudar tal bomba que destruiria as pessoas, mas deixaria as coisas intactas. Seria a tal bomba motivo disto?

O sol refletia nas poças d’água proveniente da chuva que ocorrera pela manhã. Ele olhou para o alto, vendo os prédios com seus topos quase inalcançáveis de tão longos. Notou um prédio mais baixo, onde uma moça permanecia sentada na beirada, olhando para baixo como um suicida sendo magneticamente atraído pelo chão. Correu em direção ao prédio, entrando pela porta entreaberta com um empurrão e subindo pelas escadas, tendo em vista que era um prédio pequeno, de poucos andares.

Chegando ao topo, imaginou ter visto uma cruz gigante, mas quando o sol baixou, notou ser a moça, de braços abertos e em pé, esperando o vento lhe empurrar para baixo, indo de encontro ao chão. Correu até ela, puxando-lhe pelas vestes, fazendo-a esbarrar contra si. Sentiu a pele macia e quente da moça, torrada pelo sol. Ela levantou o olhar em direção ao rosto do rapaz, que ainda não entedia aquele momento. A garota gemeu de leve, afastando-se do rapaz, que deu alguns passos para trás, mas voltou a caminhar em direção à moça, que se aproximava mais da beira do prédio, pronta para morrer.

- Não... – soltou o rapaz, com uma voz fraca, como se há anos não falasse.

- É tarde... Adeus... – a moça despedia-se, com uma voz melancólica.

E ela pulou.

Ele acordava, levantando-se de um salto na cama desarrumada. Eram nove horas.

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