segunda-feira, 8 de julho de 2013

Crônica de uma noite comum de uma cidade qualquer

Imagem por: ~datto-machavariani

 É noite, conto as estrelas no céu, sentado na varanda. O ato de olhar para as estrelas é uma das efemeridades de uma vida fadada ao caos e ao desacreditar da sociedade. O homem para ser humano necessita viver em sociedade. Do contrário, ele não passa de um homo sapiens. Dos vários moldes que não me encaixo, esse é mais um. Vivo na linha tênue entre a sociabilidade e a exclusão, andando por cima de uma corda bamba. Pra qual lado cairei?
 O vizinho fuma charuto e sua fumaça chega ao meu nariz. É um cheiro doce, viciante, tentador. Tenho vontade de bater na porta e pedir um trago. Contento-me com um copo d’água. Calço as chinelas, visto uma camisa e desço as escadas lentamente, devido ao escuro. A lâmpada está queimada. Faz um frio imenso, me arrependo de não ter calçado umas meias. Já é tarde, estou na rua.  
 Algumas nuvens se formam, ameaçando uma chuva em breve. Ignoro o aviso e sigo caminhando, com os pés trêmulos de frio. Passo por uma esquina e um brilho rápido e pequeno me chama a atenção. Quase paro, mas entendo que aquilo era o brilho de um isqueiro aceso. Um homem sentado na calçada de um restaurante fechado tenta acender um cachimbo. Crack. Atravesso a rua, olhando reto, sem desviar para o homem e jogo meu isqueiro para ele, saindo sem dar tempo para agradecimentos. Ando sempre com um isqueiro, mesmo que eu não fume, mas serve para conquistar sexualmente pessoas que fumam.
 A música da cidade é uma sinfonia de sirenes de ambulância e buzinas de carro, com leves toques de freada de pneus em certos momentos do concerto. Como um farol, o outdoor luminoso parece me guiar até o shopping. Posso vê-lo de uma longa distância. Ao me aproximar, sinto como fosse banhado pela luz do dia, porem de uma artificialidade peculiar. Sento na calçada, observando os carros passarem.
  Um senhor desce do ônibus, jogando primeiro suas bolsas para fora do veículo. Depois, desce com cuidado, auxiliado por um cabo de vassoura velho e gasto. O motorista, impaciente, fecha a porta, prendendo o cabo, enquanto o veículo começa a mover-se novamente. Com rapidez, o homem puxa o cabo a tempo, sem antes deixar de falar alguns palavrões para o motorista, que a esta altura já não poderia ouvi-los.

  Ratos correm pelos bueiros da cidade. Uma senhora de aparência frágil me pede esmolas e dou as poucas moedas que havia em meu bolso. Volto para casa, não suportando tanta sociedade em uma noite apenas. Subo as escadas e escuto o vizinho brigando com a mulher, pelo telefone. É, a noite será longa. 

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